Pedagogia Hospitalar 4

FORMAÇÃO E PRÁTICA PEDAGÓGICA EM CLASSES
HOSPITALARES:
RESPEITANDO A CIDADANIA DE CRIANÇAS E JOVENS ENFERMOS


A
criação de classes escolares em hospitais é
resultado do reconhecimento formal de que crianças
hospitalizadas, independentemente do período de permanência
na instituição ou de outro fator qualquer, têm
necessidades educativas e direitos de cidadania, onde se inclui a
escolarização. 

Esse
não é fenômeno recente.  Fonseca e Ceccim
(1999) abordam o assunto e esclarecem que, a partir da segunda metade
do século XX, observou-se que, em países desenvolvidos,
como Inglaterra e Estados Unidos, orfanatos, asilos e instituições
que prestavam assistência a crianças violavam aspectos
básicos do desenvolvimento emocional das mesmas, por falta de
atendimento integral.  Concluiu-se igualmente que tais lacunas
apresentavam o risco de seqüelas as quais, na vida adulta,
poderiam evoluir para condições psiquiátricas
sérias. 

Decorreu
daí a iniciativa de implementar experiências educativas
para crianças e jovens internados em instituições
hospitalares.  Com o transcorrer do tempo, a providência
foi também incorporada a hospitais brasileiros, com idêntico
objetivo.

A
despeito da justiça social dessa iniciativa, verificamos que,
em nosso país, a escolarização de crianças
e adolescentes hospitalizados não tem merecido atenção
suficiente, por parte do poder público, seja em nível
municipal, estadual ou federal.  Na verdade, a ampliação
dessa modalidade de educação ainda é incipiente
em nosso país. 

No
âmbito das organizações da sociedade civil, temos
algumas indicações da preocupação com o
respeito aos direitos dessas crianças e adolescentes.  O
Departamento de Defesa dos Direitos da Criança, da Sociedade
Brasileira de Pediatria, através dos participantes na 27a
Assembléia Ordinária do Conselho Nacional de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), ocorrida em
Brasília, em 17 de outubro de 1995, elaborou um documento,
aprovado por unanimidade e transformado em Resolução no
41.  Entre os 20 itens que se referem aos  Direitos da
Criança e do Adolescente Hospitalizados encontra-se o de no
9, o qual preconiza: Direito a desfrutar de alguma forma de
recreação, programa de educação para a
saúde, acompanhamento do currículo escolar, durante sua
permanência hospitalar.

A
legislação brasileira reconhece o direito de crianças
e adolescentes hospitalizados ao atendimento pedagógico-educacional. 
A esse respeito, merece destaque a formulação da
Política Nacional de Educação Especial
(MEC/SEESP, 1994 e 1995).  Essa propõe que a educação
em hospital seja realizada através da organização
de classes hospitalares, devendo-se assegurar oferta educacional não
só aos pequenos pacientes com transtornos do desenvolvimento,
mas, também, às crianças e adolescentes em
situações de risco, como é o caso da internação
hospitalar (Fonseca,1999).  

As
providências mencionadas são muito importantes,
especialmente se considerarmos que, apesar de acometida por uma
enfermidade, a criança hospitalizada tem interesses, desejos,
sonhos e direitos de cidadania, como qualquer outra pessoa de sua
idade.

Dados
do I Encontro Nacional sobre Atendimento Pedagógico-Hospitalar
realizado no Rio de Janeiro em julho de 2000, indicam que no Brasil
existem 67 classes hospitalares em funcionamento e o município
do Rio de Janeiro contava com 11 dessas instituições em
atividade e 17 professores atuando, destacando-se, entre essas, a
classe hospitalar mais antiga ainda em funcionamento no Hospital
Municipal Jesus (hospital público infantil), que iniciou
oficialmente suas atividades em 14 de agosto de 1950.

Essas
onze classes hospitalares em atividade no Rio de Janeiro são
vinculadas à Secretaria Municipal de Educação e
contam com professoras concursadas pelo município.  Elas
constituem uma extensão da escola no hospital, isto é,
seguem o mesmo conteúdo didático sugerido pelo
município, atendendo crianças e jovens desde a Educação
Infantil até a quarta série do primeiro segmento do
ensino fundamental. Devido às condições de saúde
e peculiaridades do alunado atendido, desenvolvem percursos
individualizados, a partir de temas emanados do multieducação
- núcleo curricular básico do município.

Essas
instituições podem ser consideradas como espaços
não-formais de educação, uma vez que, como
definido por Fávero (1980), a educação
não-formal abrange qualquer tentativa educacional
organizada e sistemática que se realiza fora dos quadros do
sistema formal (de ensino), para fornecer determinados tipos
selecionados de aprendizagem (p.23).

Gohn
(1999 ) acrescenta que a educação não-formal
designa um processo com quatro campos de dimensões, entre
eles, um que abarca aprendizagem dos conteúdos da
escolarização formal, escolar, em espaços
diferenciados (pp. 98,99) – o que inclui a classe hospitalar.
Segundo a autora, no espaço de educação
não-formal existe a preocupação de se
transmitir os mesmos conteúdos da escola formal, entretanto
esse repasse é desenvolvido em espaços alternativos e
com metodologias e seqüências cronológicas
diferenciadas (p.102).

Em
pesquisa realizada em quatro classes hospitalares do município
do Rio de Janeiro com nove professoras participantes (Amaral, 2001),
os resultados indicam que, do ponto de vista da formação
acadêmica, predominou a formação universitária,
havendo significativa presença de pós-graduadas. Entre
as docentes, ficou claro o desejo de acesso a uma formação
mais consistente com as demandas do trabalho nesses ambientes, de
preferência no nível de especialização.
Compreender e respeitar essa reivindicação implica a
consciência de que, para atender à clientela de alunos
hospitalizados, são necessários conhecimentos sobre a
rotina hospitalar, medicamentos, diferentes tipos de enfermidades,
dentre outros aspectos que não constituem práticas
usuais de uma professora de escola regular e nem fazem parte do
currículo da formação para o magistério,
habitualmente. A ampliação das oportunidades de
aperfeiçoamento profissional poderá preencher lacunas
que a formação inicial docente deixou em aberto.

Não
se pode desconsiderar, conforme registro das entrevistadas, que pouco
se divulga sobre classes hospitalares no contexto universitário
e, durante a graduação, não se tem informação
sobre essa alternativa de prática docente.  Nessa linha
de pensamento, a possibilidade de continuar estudando após a
graduação (em um curso voltado para a área
pedagógico-hospitalar) só teria a acrescentar elementos
qualitativos à sua prática cotidiana. Para reforçar
essa proposta, recorremos às palavras das próprias
participantes:

A
gente está sempre em busca de conhecimento que venha a somar
para o nosso trabalho. A graduação deixa muito a
desejar em relação à Educação
Especial. A gente nem ouve falar em classe hospitalar”. Professora
E.

Um
curso de especialização voltado para essa temática,
a classe hospitalar, seria o ideal”. Professora C.

Dessa
maneira seria possível viabilizar a difusão de
experiências bem sucedidas, a busca cooperativa de solução
para problemas do cotidiano, além de contribuir para
aprofundar o conhecimento sistemático das peculiaridades que
permeiam a assistência multidisciplinar ou interdisciplinar a
ser prestada às criança ou adolescentes enfermos.

Por
outro lado, como referimos, caberia preencher lacunas em termos de
conhecimento científico sobre diferentes tipos de doenças,
procedimentos apropriados a cada grupo de clientes, buscando-se
sempre a contribuição integrada de enfoques como os da
Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, do Serviço
Social, da Didática e da Pedagogia, de especialistas em
ludoterapia, entre tantas outras áreas de fundamental
importância para o trabalho dos professores em classes
hospitalares.

Outra
proposta que poderia ser atendida pela formação no
nível de especialização em classes hospitalares,
ou do trabalho de planejamento cooperativo em serviço, seria o
preparo para a elaboração de um projeto
político-pedagógico coerente com as necessidades e
peculiaridades dessa clientela. Como em outras situações
análogas, é evidente que um trabalho de qualidade não
pode ficar à mercê do ensaio e erro ou restrito à
boa vontade e capacidade de solidariedade e dedicação
dos profissionais, por mais que esses aspectos sejam importantes. 

Nessa
perspectiva, as próprias universidades, no exercício da
função de extensão universitária,
poderiam promover experiências de apoio às instituições,
na formulação, acompanhamento e avaliação
da implementação de projetos político-pedagógicos
apropriados aos objetivos e funções das classes
hospitalares.

Também
se fazem necessários estudos que subsidiem a formulação
de diretrizes curriculares e metodologias de ensino-aprendizagem, a
serem desenvolvidas junto às crianças e adolescentes
que se encontram em situação particularmente
desafiadora e que precisam ter garantidos seus direitos de
cidadania. 

A
esse respeito, os resultados da pesquisa indicam que as professoras
desenvolvem importantes iniciativas no sentido de adequar o currículo
às demandas e necessidades do seu alunado.  Porém,
precisam de suporte pedagógico, diante da necessidade de pôr
em ação um currículo que atenda às
crianças e jovens com diferentes tipos de problemas de saúde
e que, por isso, têm permanência curta, média ou
de longa duração nas instituições
hospitalares.

A
prática pedagógica nesse espaço exige dos
profissionais envolvidos maior flexibilidade, por tratar-se de uma
clientela que se encontra em constante modificação,
tanto em relação ao número de crianças
que irão ser atendidas pelas professoras bem como no que diz
respeito ao tempo que cada uma delas permanecerá internada e
ainda o fato de serem crianças e jovens com diferentes
patologias, requisitando diferentes intervenções. 
Logo, a atuação na classe hospitalar requer compreensão
para a peculiaridade de que, mais do que em outras instituições,
não existe uma receita pronta, um planejamento perfeito, uma
cartilha de respostas a ser seguida, mas sim um desafio de se traçar,
a partir de temas geradores, percursos individualizados.

As
professoras recorrem, sempre que possível,  à
ajuda de acompanhantes das crianças, os quais precisam ser
preparados para manifestar atitude positiva e de confiança na
recuperação da saúde e/ou na adaptação
às limitações presentes, garantindo a qualidade
de vida.  Não há dúvida da importância
da parceria entre docentes e familiares, os quais desempenham
relevante papel, como elemento de apoio e cooperação na
preservação do equilíbrio possível entre
os pequenos pacientes.

No
que diz respeito aos profissionais de saúde envolvidos nesse
processo, ainda existem algumas dificuldades a serem ultrapassadas,
como o intercâmbio de informações acerca das
patologias das crianças e jovens, a socialização
do que está escrito nos prontuários ou ainda as
recomendações a serem seguidas, de acordo com a
enfermidade de cada paciente.

Acreditamos
que tais dificuldades, teoricamente, seriam facilmente transponíveis
e que poderão ser discutidas em seminários, reuniões
ou mesmo simples encontros desses profissionais, que num diálogo
franco e no trabalho cooperativo, poderiam avançar e apoiar-se
mutuamente.

Além
disso, os dados da pesquisa são eloqüentes no sentido de
esclarecer que as professoras têm plena consciência de
seu papel transformador nessa difícil realidade e acreditam na
afirmação da saúde e da vida das crianças
e jovens hospitalizados.

Para
concluir, vale assinalar que nossa permanência no campo e o
conseqüente envolvimento com as nove professoras e alunos das
classes hospitalares dos quatro hospitais proporcionaram muita
reflexão e esperança, além de convicções
sobre o potencial do trabalho pedagógico junto aos espaços
não convencionais, como é o caso das classes
hospitalares.  Ao mesmo tempo, pudemos inferir o quanto os
cursos de graduação em Educação têm
ficado à margem dessas alternativas… 

Diante
disso, são explicáveis as lacunas que afligem as
professoras e outros profissionais que desenvolvem atividades
técnico-pedagógicas e administrativas nesses espaços. 
Nessa linha de pensamento, a literatura analisada ao longo da
pesquisa é categórica quanto à sua
caracterização como eminentemente pedagógica. 
Decorre daí a premência de evitar o desenvolvimento de
propostas meramente recreativas ou assistencialistas, sob o rótulo
de classes hospitalares. 

Da
mesma forma, cumpre salientar a urgência de ampliação
da proposta das classes hospitalares a todas as instituições,
para garantir a cobertura universal de crianças e adolescentes
hospitalizados, de acordo com suas condições e
possibilidades.  Nossos resultados não deixam dúvidas
quanto à  importância desse trabalho e os
benefícios que ele traz não só para as crianças
e jovens hospitalizados, mas para as famílias, para o corpo
médico e para as professoras atuantes. 

Inferimos
igualmente, a partir de nossas observações, que as
professoras entrevistadas têm enorme amor pelo que fazem, sem
contudo perderem de vista a dimensão profissional.  Por
isso, buscam compartilhar com seus alunos a construção
de conhecimentos, orientada para o exercício da cidadania. 
Sob esse ponto de vista, exercem o que chamamos de pedagogia do
resgate: o resgate da saúde, a celebração da
vida. 

Lembramos
ainda que as universidades que mantêm hospitais universitários
para atendimento da população e prática
hospitalar de seus alunos da área da saúde, poderiam
incluir um projeto pedagógico-hospitalar, que teria potencial
de prática dos acadêmicos da área da Educação
e áreas como a psicologia, fonoaudiologia, enfermagem, serviço
social, entre outras. Além da ampliação da
abrangência da formação de futuros educadores
universitários, essa providência seria muito relevante
para as crianças e jovens hospitalizados.  Além
disso, constituiria enorme contribuição das
universidades, no cumprimento de sua função social,
respondendo a elevadas demandas da comunidade, promovendo um novo
campo de atuação para o exercício da cidadania.


 

A
criação de classes escolares em hospitais é
resultado do reconhecimento formal de que crianças
hospitalizadas, independentemente do período de permanência
na instituição ou de outro fator qualquer, têm
necessidades educativas e direitos de cidadania, onde se inclui a
escolarização. 

Esse
não é fenômeno recente.  Fonseca e Ceccim
(1999) abordam o assunto e esclarecem que, a partir da segunda metade
do século XX, observou-se que, em países desenvolvidos,
como Inglaterra e Estados Unidos, orfanatos, asilos e instituições
que prestavam assistência a crianças violavam aspectos
básicos do desenvolvimento emocional das mesmas, por falta de
atendimento integral.  Concluiu-se igualmente que tais lacunas
apresentavam o risco de seqüelas as quais, na vida adulta,
poderiam evoluir para condições psiquiátricas
sérias. 

Decorreu
daí a iniciativa de implementar experiências educativas
para crianças e jovens internados em instituições
hospitalares.  Com o transcorrer do tempo, a providência
foi também incorporada a hospitais brasileiros, com idêntico
objetivo.

A
despeito da justiça social dessa iniciativa, verificamos que,
em nosso país, a escolarização de crianças
e adolescentes hospitalizados não tem merecido atenção
suficiente, por parte do poder público, seja em nível
municipal, estadual ou federal.  Na verdade, a ampliação
dessa modalidade de educação ainda é incipiente
em nosso país. 

No
âmbito das organizações da sociedade civil, temos
algumas indicações da preocupação com o
respeito aos direitos dessas crianças e adolescentes.  O
Departamento de Defesa dos Direitos da Criança, da Sociedade
Brasileira de Pediatria, através dos participantes na 27a
Assembléia Ordinária do Conselho Nacional de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), ocorrida em
Brasília, em 17 de outubro de 1995, elaborou um documento,
aprovado por unanimidade e transformado em Resolução no
41.  Entre os 20 itens que se referem aos  Direitos da
Criança e do Adolescente Hospitalizados encontra-se o de no
9, o qual preconiza: Direito a desfrutar de alguma forma de
recreação, programa de educação para a
saúde, acompanhamento do currículo escolar, durante sua
permanência hospitalar.

A
legislação brasileira reconhece o direito de crianças
e adolescentes hospitalizados ao atendimento pedagógico-educacional. 
A esse respeito, merece destaque a formulação da
Política Nacional de Educação Especial
(MEC/SEESP, 1994 e 1995).  Essa propõe que a educação
em hospital seja realizada através da organização
de classes hospitalares, devendo-se assegurar oferta educacional não
só aos pequenos pacientes com transtornos do desenvolvimento,
mas, também, às crianças e adolescentes em
situações de risco, como é o caso da internação
hospitalar (Fonseca,1999).  

As
providências mencionadas são muito importantes,
especialmente se considerarmos que, apesar de acometida por uma
enfermidade, a criança hospitalizada tem interesses, desejos,
sonhos e direitos de cidadania, como qualquer outra pessoa de sua
idade.

Dados
do I Encontro Nacional sobre Atendimento Pedagógico-Hospitalar
realizado no Rio de Janeiro em julho de 2000, indicam que no Brasil
existem 67 classes hospitalares em funcionamento e o município
do Rio de Janeiro contava com 11 dessas instituições em
atividade e 17 professores atuando, destacando-se, entre essas, a
classe hospitalar mais antiga ainda em funcionamento no Hospital
Municipal Jesus (hospital público infantil), que iniciou
oficialmente suas atividades em 14 de agosto de 1950.

Essas
onze classes hospitalares em atividade no Rio de Janeiro são
vinculadas à Secretaria Municipal de Educação e
contam com professoras concursadas pelo município.  Elas
constituem uma extensão da escola no hospital, isto é,
seguem o mesmo conteúdo didático sugerido pelo
município, atendendo crianças e jovens desde a Educação
Infantil até a quarta série do primeiro segmento do
ensino fundamental. Devido às condições de saúde
e peculiaridades do alunado atendido, desenvolvem percursos
individualizados, a partir de temas emanados do multieducação
- núcleo curricular básico do município.

Essas
instituições podem ser consideradas como espaços
não-formais de educação, uma vez que, como
definido por Fávero (1980), a educação
não-formal abrange qualquer tentativa educacional
organizada e sistemática que se realiza fora dos quadros do
sistema formal (de ensino), para fornecer determinados tipos
selecionados de aprendizagem (p.23).

Gohn
(1999 ) acrescenta que a educação não-formal
designa um processo com quatro campos de dimensões, entre
eles, um que abarca aprendizagem dos conteúdos da
escolarização formal, escolar, em espaços
diferenciados (pp. 98,99) – o que inclui a classe hospitalar.
Segundo a autora, no espaço de educação
não-formal existe a preocupação de se
transmitir os mesmos conteúdos da escola formal, entretanto
esse repasse é desenvolvido em espaços alternativos e
com metodologias e seqüências cronológicas
diferenciadas (p.102).

Em
pesquisa realizada em quatro classes hospitalares do município
do Rio de Janeiro com nove professoras participantes (Amaral, 2001),
os resultados indicam que, do ponto de vista da formação
acadêmica, predominou a formação universitária,
havendo significativa presença de pós-graduadas. Entre
as docentes, ficou claro o desejo de acesso a uma formação
mais consistente com as demandas do trabalho nesses ambientes, de
preferência no nível de especialização.
Compreender e respeitar essa reivindicação implica a
consciência de que, para atender à clientela de alunos
hospitalizados, são necessários conhecimentos sobre a
rotina hospitalar, medicamentos, diferentes tipos de enfermidades,
dentre outros aspectos que não constituem práticas
usuais de uma professora de escola regular e nem fazem parte do
currículo da formação para o magistério,
habitualmente. A ampliação das oportunidades de
aperfeiçoamento profissional poderá preencher lacunas
que a formação inicial docente deixou em aberto.

Não
se pode desconsiderar, conforme registro das entrevistadas, que pouco
se divulga sobre classes hospitalares no contexto universitário
e, durante a graduação, não se tem informação
sobre essa alternativa de prática docente.  Nessa linha
de pensamento, a possibilidade de continuar estudando após a
graduação (em um curso voltado para a área
pedagógico-hospitalar) só teria a acrescentar elementos
qualitativos à sua prática cotidiana. Para reforçar
essa proposta, recorremos às palavras das próprias
participantes:

A
gente está sempre em busca de conhecimento que venha a somar
para o nosso trabalho. A graduação deixa muito a
desejar em relação à Educação
Especial. A gente nem ouve falar em classe hospitalar”. Professora
E.

Um
curso de especialização voltado para essa temática,
a classe hospitalar, seria o ideal”. Professora C.

Dessa
maneira seria possível viabilizar a difusão de
experiências bem sucedidas, a busca cooperativa de solução
para problemas do cotidiano, além de contribuir para
aprofundar o conhecimento sistemático das peculiaridades que
permeiam a assistência multidisciplinar ou interdisciplinar a
ser prestada às criança ou adolescentes enfermos.

Por
outro lado, como referimos, caberia preencher lacunas em termos de
conhecimento científico sobre diferentes tipos de doenças,
procedimentos apropriados a cada grupo de clientes, buscando-se
sempre a contribuição integrada de enfoques como os da
Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, do Serviço
Social, da Didática e da Pedagogia, de especialistas em
ludoterapia, entre tantas outras áreas de fundamental
importância para o trabalho dos professores em classes
hospitalares.

Outra
proposta que poderia ser atendida pela formação no
nível de especialização em classes hospitalares,
ou do trabalho de planejamento cooperativo em serviço, seria o
preparo para a elaboração de um projeto
político-pedagógico coerente com as necessidades e
peculiaridades dessa clientela. Como em outras situações
análogas, é evidente que um trabalho de qualidade não
pode ficar à mercê do ensaio e erro ou restrito à
boa vontade e capacidade de solidariedade e dedicação
dos profissionais, por mais que esses aspectos sejam importantes. 

Nessa
perspectiva, as próprias universidades, no exercício da
função de extensão universitária,
poderiam promover experiências de apoio às instituições,
na formulação, acompanhamento e avaliação
da implementação de projetos político-pedagógicos
apropriados aos objetivos e funções das classes
hospitalares.

Também
se fazem necessários estudos que subsidiem a formulação
de diretrizes curriculares e metodologias de ensino-aprendizagem, a
serem desenvolvidas junto às crianças e adolescentes
que se encontram em situação particularmente
desafiadora e que precisam ter garantidos seus direitos de
cidadania. 

A
esse respeito, os resultados da pesquisa indicam que as professoras
desenvolvem importantes iniciativas no sentido de adequar o currículo
às demandas e necessidades do seu alunado.  Porém,
precisam de suporte pedagógico, diante da necessidade de pôr
em ação um currículo que atenda às
crianças e jovens com diferentes tipos de problemas de saúde
e que, por isso, têm permanência curta, média ou
de longa duração nas instituições
hospitalares.

A
prática pedagógica nesse espaço exige dos
profissionais envolvidos maior flexibilidade, por tratar-se de uma
clientela que se encontra em constante modificação,
tanto em relação ao número de crianças
que irão ser atendidas pelas professoras bem como no que diz
respeito ao tempo que cada uma delas permanecerá internada e
ainda o fato de serem crianças e jovens com diferentes
patologias, requisitando diferentes intervenções. 
Logo, a atuação na classe hospitalar requer compreensão
para a peculiaridade de que, mais do que em outras instituições,
não existe uma receita pronta, um planejamento perfeito, uma
cartilha de respostas a ser seguida, mas sim um desafio de se traçar,
a partir de temas geradores, percursos individualizados.

As
professoras recorrem, sempre que possível,  à
ajuda de acompanhantes das crianças, os quais precisam ser
preparados para manifestar atitude positiva e de confiança na
recuperação da saúde e/ou na adaptação
às limitações presentes, garantindo a qualidade
de vida.  Não há dúvida da importância
da parceria entre docentes e familiares, os quais desempenham
relevante papel, como elemento de apoio e cooperação na
preservação do equilíbrio possível entre
os pequenos pacientes.

No
que diz respeito aos profissionais de saúde envolvidos nesse
processo, ainda existem algumas dificuldades a serem ultrapassadas,
como o intercâmbio de informações acerca das
patologias das crianças e jovens, a socialização
do que está escrito nos prontuários ou ainda as
recomendações a serem seguidas, de acordo com a
enfermidade de cada paciente.

Acreditamos
que tais dificuldades, teoricamente, seriam facilmente transponíveis
e que poderão ser discutidas em seminários, reuniões
ou mesmo simples encontros desses profissionais, que num diálogo
franco e no trabalho cooperativo, poderiam avançar e apoiar-se
mutuamente.

Além
disso, os dados da pesquisa são eloqüentes no sentido de
esclarecer que as professoras têm plena consciência de
seu papel transformador nessa difícil realidade e acreditam na
afirmação da saúde e da vida das crianças
e jovens hospitalizados.

Para
concluir, vale assinalar que nossa permanência no campo e o
conseqüente envolvimento com as nove professoras e alunos das
classes hospitalares dos quatro hospitais proporcionaram muita
reflexão e esperança, além de convicções
sobre o potencial do trabalho pedagógico junto aos espaços
não convencionais, como é o caso das classes
hospitalares.  Ao mesmo tempo, pudemos inferir o quanto os
cursos de graduação em Educação têm
ficado à margem dessas alternativas… 

Diante
disso, são explicáveis as lacunas que afligem as
professoras e outros profissionais que desenvolvem atividades
técnico-pedagógicas e administrativas nesses espaços. 
Nessa linha de pensamento, a literatura analisada ao longo da
pesquisa é categórica quanto à sua
caracterização como eminentemente pedagógica. 
Decorre daí a premência de evitar o desenvolvimento de
propostas meramente recreativas ou assistencialistas, sob o rótulo
de classes hospitalares. 

Da
mesma forma, cumpre salientar a urgência de ampliação
da proposta das classes hospitalares a todas as instituições,
para garantir a cobertura universal de crianças e adolescentes
hospitalizados, de acordo com suas condições e
possibilidades.  Nossos resultados não deixam dúvidas
quanto à  importância desse trabalho e os
benefícios que ele traz não só para as crianças
e jovens hospitalizados, mas para as famílias, para o corpo
médico e para as professoras atuantes. 

Inferimos
igualmente, a partir de nossas observações, que as
professoras entrevistadas têm enorme amor pelo que fazem, sem
contudo perderem de vista a dimensão profissional.  Por
isso, buscam compartilhar com seus alunos a construção
de conhecimentos, orientada para o exercício da cidadania. 
Sob esse ponto de vista, exercem o que chamamos de pedagogia do
resgate: o resgate da saúde, a celebração da
vida. 

Lembramos
ainda que as universidades que mantêm hospitais universitários
para atendimento da população e prática
hospitalar de seus alunos da área da saúde, poderiam
incluir um projeto pedagógico-hospitalar, que teria potencial
de prática dos acadêmicos da área da Educação
e áreas como a psicologia, fonoaudiologia, enfermagem, serviço
social, entre outras. Além da ampliação da
abrangência da formação de futuros educadores
universitários, essa providência seria muito relevante
para as crianças e jovens hospitalizados.  Além
disso, constituiria enorme contribuição das
universidades, no cumprimento de sua função social,
respondendo a elevadas demandas da comunidade, promovendo um novo
campo de atuação para o exercício da cidadania.



Daniela Patti do Amaral
(
Mestra
em Educação pela Universidade Estácio de Sá – Brasil)

Dr.ª Maria Teresinha Pereira e Silva -


(Professora do Mestrado em Educação e Direito da Universidade Estácio de
Sá – Brasil)

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