Literatura infantil radical ou As crianças de esquerda
14 set 2010 Deixe um comentário
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A atual crise econômica também está afetando as mentalidades e os alicerces
ideológicos da única superpotência que restou, os EUA, local no qual a crise
teve início e se alastrou pelo mundo. A paranóia que parece tomar alguns
setores é tamanha que alguns críticos já começam a temer pelos ideais liberais,
visto, justamente, ter sido lançado um livro Tales for Little Rebels: A
Collection of Radical Children’s Literature (algo como Contos para pequenos rebeldes:
Uma coletânea de literatura infantil radicalista), de Julia L. Mickenberg e
Philip Nel, pela NYU Press, que analisa as ideias esquerdistas contidas
em cerca 100 ilustrações de 43 livros infantis, já esgotados, escritos durante
o século XX.

Segundo um articulista do
New York Times, a juventude norte-americana já está perdida, pois foram
incutidas ideias radicalistas durante todo o século XX nas mentes das crianças
em livros escritos por esquerdistas ou que trouxessem ideais esquerdistas em
suas histórias. Os pavorosos ideais esquerdistas seriam a busca pela Paz (sim,
eu escrevo em letra maiúscula), os direitos civis, a igualdade de direitos
entre homem e mulher, a responsabilidade ambiental e a dignidade do trabalho.
Além disso, a mais
arrepiante das ideias seria: “os esquerdistas ensinaram as crianças a
questionar a autoridade de quem estava no poder”. Tanto que logo no início do
artigo, Caleb Crain, o articulista, descreve o seu receio desta forma, ao perguntar
o que será das crianças dos EUA:
“Empresas financeiras estão
sendo nacionalizadas (estatizadas) aos borbotões. O governo promete socorrer
empresas para combater a recessão. Existem, ainda, rumores de que a assistência
(previdência) social será universalizada (o Estado arcando com os custos). O
Socialismo se alastra como um mar! À medida que vamos nos esquecendo do
Capitalismo, os tradicionalistas (conservadores de direita) se perguntam: o que
restará para nossas crianças?”

Só faltou dar a receita de
um ensopado de crianças, não? E ainda critica os pais que estimulam atitudes,
digamos coletivas, que não observem o sentido de posse, individualismo e
competitividade; o que bem caracteriza as sociedades competitivas e
individualistas, com a seguinte passagem:
“A maioria dos pais quer
ver seus filhos tendo ideais de esquerda na mais tenra infância como partilhar
os brinquedos, evitando, assim, as disputas entre os irmãos e, daí a começarem
a perceber as empresas como sendo um mal, tendo por base uma visão cética que
os pais lhes ensinaram, é um pulo”.

Isto me faz pensar em
outro “ismo” ainda mais aterrorizante, o fascismo, que é o radicalismo de
direita. Lembremos das tropas de crianças alemãs lutando contra os liados já
nos estertores da Segunda Grande Guerra. Uma coisa abominável. Tudo isso
motivado por uma ideologia(?) nojenta e que, pasme, ainda está por aí
grassando. Isto para não falar em um outro “ismo” associado ao aspecto
espiritual, que é tão maquiavelicamente manipulado, o fanatismo religioso.

As opiniões dos críticos
literários e educadores são diametralmente opostas a do articulista. Vejamos,
por exemplo, a opinião de Anita Silvey, autora de Os 100 Melhores Livros Para
Crianças”:
Um aspecto raramente
discutido em literatura infantil e infantojuvenil é a ideologia política por
trás das histórias, ou parte da criação de determinado livro foi exaustivamente
explorado neste inteligente, esclarecedor e fascinante estudo. Mesmo aqueles
que passaram a vida toda estudando a literatura infantil encontrará incríveis
surpresas (.) O livro não é apenas relação de histórias. É, na verdade, uma
muito oportuna e adequada exploração da inclusão político-social que se
encontra no conteúdo de livros infantis. (.) Professores e bibliotecas devem
adquirir ao menos um exemplar. Cada professor de Literatura deve lê-lo e as
crianças devem ser estimuladas a ler o livro e partilhar com seus colegas.

Um dos grandes dilemas das
duas grandes superpotências que existiram durante boa parte do século XX, a União
Soviética e os Estados Unidos, era saber como perpetuar os seus ideais
políticos entre seus habitantes. A Guerra Fria foi o auge desse dilema, pois de
lado a lado incutiam na população suas ideologias de forma que o outro lado
parecesse o mais pavoroso dos monstros já criados. Ou eram burgueses decadentes
ou eram comedores de criancinhas e foram levando essa “batalha” interna até a
queda do muro de Berlim. Hoje, a preocupação é mais religiosa, envolvendo
conflitos aos moldes das cruzadas.

* Este artigo foi escrito
a partir da livre tradução feita por mim, da resenha Children of Left, Unite!, de
Caleb Crain, para o New York Times Books Review, de 09/01/2009.
Fontes de pesquisa para
elaboração do artigo:
New York Times Books Review
NYU Press
Crooked House



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