Por uma arte de contar histórias
12 mar 2010 Deixe um comentário
em Profª Bia

Ah,
como é importante na
formação de qualquer criança ouvir muitas histórias… Escutar histórias
é o
início da aprendizagem para ser um leitor e ser leitor é ter todo um
caminho de
descobertas e de compreensão do mundo, absolutamente infinito…
O primeiro contato
da
criança com um texto é feito, em geral, oralmente. É pela voz da mãe e
do pai,
contando contos de fada, trechos da Bíblia, histórias inventadas tendo a
gente
como personagem, narrativas de quando eles eram crianças e tanta, tanta
coisa
mais… Contadas durante o dia, numa tarde de chuva ou à noite, antes de
dormir, preparando para o sono gostoso e reparador , embalado por uma
voz
amada… É poder rir, sorrir, gargalhar com as situações vividas pelos
personagens, com a idéia do conto ou com o jeito de escrever de um autor
e,
então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de gozação.
Ler histórias para
as crianças,
sempre, sempre… É suscitar o imaginário, é ter a curiosidade
respondida em
relação a tantas perguntas, e encontrar muitas idéias para solucionar
questões
- como os personagens fizeram… – é estimular para desenhar, para
musicar,
para teatralizar, para brincar… Afinal, tudo pode nascer de um texto.
O significado de
escutar
histórias é tão amplo… É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso
dos
conflitos, das dificuldades, dos impasses, das soluções, que todos
atravessamos
e vivemos, de um jeito ou de outro, através dos problemas que vão sendo
defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelos personagens
de
cada história (cada um a seu modo…) E assim esclarecer melhor os
nossos ou
encontrar um caminho possível para a resolução deles… É ouvindo
histórias que
se pode sentir (também) emoções importantes como: a tristeza, a raiva, a
irritação, o medo, a alegria, o pavor, a impotência, a insegurança e
tantas
outras mais, e viver profundamente isso tudo que as narrativas provocam e
suscitam
em quem as ouve ou as lê, com toda a amplitude, significância e verdade
que
cada uma delas faz (ou não) brotar…
É através de uma
história
que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de
agir e de
ser, outras regras, outra ética, outra ótica… É ficar sabendo
história,
geografia, filosofia, direito, política, sociologia, antropologia,
etc… sem
precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de
aula…
Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer, e passa a
ser
didática, que é um outro departamento (não tão preocupado em abrir todas
as
comportas da compreensão do mundo)…
Ouvir e ler
histórias é
também desenvolver todo o potencial crítico da criança. É poder pensar,
duvidar, se perguntar, questionar… É se sentir inquieto, cutucado,
querendo
saber mais e melhor ou percebendo que se pode mudar de idéia… É ter
vontade
de reler ou deixar de lado de uma vez…
É ficar fissurado
querendo
ouvir de novo mil vezes ou saber que detestou e não querer nenhuma
aproximação
com aquela história tão chata ou tão boba ou tão sem graça… É formar a
opinião, é ir formulando os próprios critérios, é começar a amar um
autor, um
gênero, uma idéia e daí ir seguindo por essa trilha e ir encontrando
outros e
novos valores (que talvez façam redobrar o amor pelo autor ou viver uma
decepção… Mas isto tudo faz parte da vida).
Ouvir histórias é
ficar
conhecendo escritores – e daí ser importantíssimo dizer à criança o
título do
que está escutando e seu autor (se for material recolhido da cultura
popular,
se for autor desconhecido, que se diga também…). faz parte da formação
saber
quem nos disse coisas bonitas, ou encantadas, ou maravilhosas ou chatas,
para
que a referência fique e o caminho esteja aberto para continuar
mergulhando nos
textos de quem se admira, para dar uma colher de chá a quem não nos
envolveu
tanto num primeiro contato ou para desistir (ou adiar para um outro
momento da
vida…) a proximidade com um escrevinhador que nos desagradou ou nos
decepcionou…
Para contar uma
história, é
preciso saber como se faz… Afinal, nela se descobrem palavras novas,
se
depara com a música e com a sonoridade das frases, dos nomes… se capta
o
ritmo, a cadência do conto, fluindo como uma canção… E para isso, quem
conta
tem que criar o clima de envolvimento, de encanto… Saber dar as
pausas, o
tempo para o imaginário de cada criança construir seu cenário,
visualizar os
seus monstros, criar os seus dragões, adentrar pela sua floresta, vestir
a
princesa com a roupa que está inventando, pensar na cara do rei… e
tantas
coisas mais…
E se forem as
ilustrações
do livro, feitas por um desenhista, dar o tempo para que todos vejam (ou
os que
preferem caminhar na sua própria e pessoal ilustração, que fechem os
olhos…)
E quando a criança for manusear sozinha o livro, que o folheie bem
folheado,
que olhe tanto queira, que brinque com seu formato, que se delicie em
retirá-lo
da estante (reconhecendo-o sozinha… seja em casa ou na escola) que
vire
página, ou que pule algumas para reencontrar aquele momento especial que
estava
buscando…
Se a criança não
lê é
porque não lhe estão apontando caminhos para o desfrute de bons e belos
textos… Que existem (tantos) e são fáceis de achar… Literatura é
arte,
literatura é prazer… Que a escola encampe esse lado e deixe as
cobranças
didáticas para os departamentos devidos… E nesse sentido, ela faz
parte do
leque da educação artística e não da língua portuguesa… Uma das
atividades
mais fundantes, mais significativas, mais abrangentes e mais
suscitadoras de
tantas outras, é a que decorre do ouvir e do ler uma boa história…



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