INTER-TRANSDISCIPLINARIDADE E TRANSVERSALIDADE

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Os temas transversais dos novos
parâmetros curriculares incluem Ética, Meio ambiente, Saúde, Pluralidade
cultural e Orientação sexual. Eles expressam conceitos e valores fundamentais à
democracia e à cidadania e correspondem a questões importantes e urgentes para
a sociedade brasileira de hoje, presentes sob várias formas na vida cotidiana.
São amplos o bastante para traduzir preocupações de todo País, são questões em
debate na sociedade através dos quais, o dissenso, o confronto de opiniões se
coloca.

Através da Ética,
o aluno deverá entender o conceito de justiça baseado na equidade e
sensibilizar-se pela necessidade de construção de uma sociedade justa, adotar
atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças sociais,
discutindo a moral vigente e tentando compreender os valores presentes na
sociedade atual e em que medida eles devem ou podem ser mudados. Através do
tema Meio-ambiente o aluno deverá compreender as noções básicas sobre o
tema, perceber relações que condicionam a vida para posicionar-se de forma
crítica diante do mundo, dominar métodos de manejo e conservação ambiental. A Saúde
é um direito de todos. Por esse tema o aluno compreenderá que saúde é produzida
nas relações com o meio físico e social, identificando fatores de risco aos
indivíduos necessitando adotar hábitos de auto-cuidado. A Pluralidade
cultural
tratará da diversidade do patrimônio cultural brasileiro,
reconhecendo a diversidade como um direito dos povos e dos indivíduos e
repudiando toda forma de discriminação por raça, classe, crença religiosa e
sexo. A orientação sexual, numa perspectiva social, deverá ensinar o
aluno a respeitar a diversidade de comportamento relativo à sexualidade, desde
que seja garantida a integridade e a dignidade do ser humano, conhecer seu corpo
e expressar seus sentimentos, respeitando os seus afetos e do outro.Educação
& trabalho
.

Além desses temas, podem
ser desenvolvidos os temas locais, que visam a tratar de conhecimentos
vinculados à realidade local. Eles devem ser recolhidos a partir do interesse
específico de determinada realidade, podendo ser definidos no âmbito do Estado,
Cidade ou Escola. Uma vez feito esse reconhecimento, deve-se dar o mesmo
tratamento que outros temas transversais.

 

Como trabalhar com os
temas transversais?

 

A transversalidade, bem
como a transdisciplinaridade, é um princípio teórico do qual decorrem várias
conseqüências práticas, tanto nas metodologias de ensino quanto na proposta
curricular e pedagógica. A transversalidade aparece hoje como um princípio inovador
nos sistemas de ensino de vários países. Contudo, a idéia não é tão nova. Ela
remonta aos ideais pedagógicos do início do século, quando se falava em ensino
global
e do qual trataram famosos educadores, entre eles, os franceses
Ovídio Decroly (1871-1932) e Celestin Freinet (1896-1966), os norte-americanos
John Dewey (1852-1952) e William Kilpatrick (1871-1965) e os soviéticos Pier
Blonsky (1884-1941) e Nadja Krupskaia (1869-1939).

O Método Decroly dos
“centros de interesse” partia da idéia da globalização do ensino para
romper com a rigidez dos programas escolares. Para ele, existem 6 centros de
interesse
que poderiam substituir os planos de estudo construídos com base
em disciplinas: a) a criança e a família; b) a criança e a escola; c) a criança
e o mundo animal; d) a criança e o mundo vegetal; e) a criança e o mundo
geográfico; f) a criança e o universo. Os centros de interesse são uma espécie
de idéias-força em torno das quais convergem as necessidades fisiológicas,
psicológicas e sociais do aluno. Freinet e Paulo Freire, nesse sentido,
partindo da leitura do mundo, do respeito à cultura primeira do aluno, buscaram
desenvolver o aprendizado através da livre discussão dos temas geradores do
universo vocabular do aluno.

O Método dos Projetos
de Kilpatrick parte de problemas reais, do dia-a-dia do aluno. Todas as
atividades escolares realizam-se através de projetos, sem necessidade de uma
organização especial. Originalmente ele chamou de projeto à “tarefa de
casa” (“home project”) de caráter manual que a criança executava
fora da escola. O projeto como método didático era uma atividade intencionada
que consistia em os próprios alunos fazerem algo num ambiente natural, por
exemplo, construindo uma casinha poderiam aprender geometria, desenho, cálculo,
história natural etc. Kilpatrick classificou os projetos em quatro grupos: a)
de produção, no qual se produzia algo; b) de consumo, no qual se aprendia a
utilizar algo já produzido; c) para resolver um problema e d) para aperfeiçoar
uma técnica. Quatro características concorriam para um bom projeto didático: a)
uma atividade motivada por meio de uma conseqüente intenção; b) um plano de
trabalho, de preferência manual; c) a que implica uma diversidade globalizada
de ensino; d) num ambiente natural.

O Método dos
Complexos
de Blonsky, Pinkevich e Kupskaia busca levar à prática
coletivamente o princípio da escola produtiva. Concentra todo o aprendizado em
torno de três grandes grupos (complexos) de fenômenos: a Natureza, o Trabalho
Produtivo e as Relações Sociais. Um grupo de educadores alemães (Braune,
Krueger, Rauch) difundiu na Alemanha e Áustria o princípio da escola em
comunidade de vida, isto é, a escola considerada como uma comunidade de vida e
de trabalho, substituindo os planos e programas de estudo por temas
globalizados de trabalho docente.

O princípio da
interdisciplinaridade
permitiu um grande avanço na idéia de integração
curricular. Mas ainda a idéia central era trabalhar com disciplinas. Na
interdisciplinaridade os interesses próprios de cada disciplina são
preservados. O princípio da transversalidade e de transdisciplinaridade busca
superar o conceito de disciplina. Aqui, busca-se uma intercomunicação entre as
disciplinas, tratando efetivamente de um tema/objetivo comum (transversal).
Assim, não tem sentido trabalhar os temas transversais através de uma nova
disciplina, mas através de projetos que integrem as diversas
disciplinas. Uma primeira experiência, ainda numa visão interdisciplinar, foi
realizada durante a gestão de Paulo Freire na Secretaria de Educação de São
Paulo e está narrada no livro Ousadia no diálogo: interdisciplinaridade na
escola pública
, organizada pela professora Nídia Nacib Pontuschka. O
projeto foi implantado com a ajuda de professores da Universidade de São Paulo.
Buscou-se capacitar o professor para trabalhar nessa nova metodologia de ensino
que consiste basicamente no trabalho coletivo e no princípio de que as várias
ciências devem contribuir para o estudo de determinados temas que orientam todo
o trabalho escolar. Foi respeitada a especificidade de cada área do
conhecimento, mas, para superar a fragmentação dos saberes procurou-se
estabelecer e compreender a relação entre uma “totalização em
construção” a ser perseguida e novas relações de colaboração integrada de
diferentes especialistas que trazem a sua contribuição para a análise de
determinado tema gerador sugerido pelo estudo da realidade que antecede a
construção curricular.

 

Como trabalhar com
projetos
?



Projeto vem de projetar,
projetar-se, atirar-se para a frente. Na prática, elaborar um projeto é o mesmo
que elaborar um plano para realizar determinada idéia. Portanto, um projeto
supõe a realização de algo que não existe, um futuro possível. Tem a ver com a
realidade em curso e com a utopia possível, realizável, concreta. Dificilmente
os integrantes de uma escola escolherão trabalhar num projeto da escola se ele
não foi a extensão de seu próprio projeto de vida. Trabalhar com projetos na
escola exige um envolvimento muito grande de todos os parceiros e supõe algo mais
do que apenas assistir ou ministrar aulas.

Além do conteúdo
propriamente dito de cada projeto, conta muito o processo de elaboração,
execução e avaliação de cada projeto. O processo também produz aprendizagens novas.
“A própria organização das atividades didáticas deve ser encarada a partir
da perspectiva do trabalho com projetos. De fato, respostas a perguntas tão
freqüentemente formuladas pelos alunos, em diferentes níveis, como “Para
que estudar Matemática? E Português? E História? E Química?” não podem
mais ter como referência o aumento do conhecimento ou da cultura, ou ainda,
mais pragmaticamente, a aprovação nos exames. A justificativa dos conteúdos
disciplinares a serem estudados deve fundar-se em elementos mais significativos
para os estudantes, e nada é mais adequado para isso do que a referência aos
projetos de vida de cada um deles, integrados simbioticamente em sua realização
aos projetos pedagógicos das unidades escolares” (MACHADO,1997:75).

Como afirmou recentemente
no IPF o professor da UNICAMP, Eduardo Chaves, o tema transversal fundante é a
Ética. Não podemos apresentar esse tema como um vendedor de roupas que diz: tenho
aqui camisas, calças, blusas e também roupas
. A diversidade cultural, o
meio ambiente, a sexualidade, o consumo etc são temas atravessados pela Ética.
Ela não é um tema a mais. Ela é elemento constitutivo de todos os temas.

 

Como trabalhar com esse
temas?



Apresentamos acima algumas
alternativas. Estudos mais recentes estão apontando o método dos projetos como
uma alternativa viável. Entre esses estudos destacamos o de Fernando Hernández
(1998) que trata especificamente da “organização do currículo por projetos
de trabalho”. A proposta do autor está vinculada à perspectiva do conhecimento
globalizado e relacional. “Essa modalidade de articulação dos
conhecimentos escolares é uma forma de organizar a atividade de ensino e
aprendizagem, que implica considerar que tais conhecimentos não se ordenam para
sua compreensão de uma forma rígida, nem em função de algumas referências
disciplinares preestabelecidas ou de uma homogeneização dos alunos. A função do
projeto é favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos
escolares em relação a: 1) o tratamento da informação, e 2) a relação entre os
diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitem aos
alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação
procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimentos próprios (…)
Globalização e significatividade são, pois, dois aspectos essenciais que se
plasmam nos Projetos. É necessário destacar o fato de que as diferentes fases e
atividades que se devam desenvolver num Projeto ajudam os alunos a serem
conscientes de seu processo de aprendizagem e exige do professorado responder
aos desafios que estabelece uma estruturação muito mais aberta e flexível dos
conteúdos escolares”. (HERNÁNDEZ, 1998:61-64).



O conceito de
interdisciplinaridade



A
interdisciplinaridade, como questão gnosiológica, surgiu no final do século
passado, pela necessidade de dar uma resposta à fragmentação causada por uma
epistemologia de cunho positivista. As ciências haviam-se dividido em muitas
disciplinas e a interdisciplinaridade restabelecia, pelo menos, um diálogo
entre elas, embora não resgatasse ainda a unidade e a totalidade do saber.

Desde então, o conceito de
interdisciplinaridade vem se desenvolvendo também nas ciências da educação.
Elas aparecem com clareza em 1912 com a fundação do Instituto Jean-Jacques
Rousseau, em Genebra, por Edward Claparède, mestre de Piaget. Toda uma
discussão foi travada sobre a relação entre as ciências mães e as ciências
aplicadas à educação: por exemplo, a sociologia (da educação), a psicologia (da
educação) etc. e noções correlatas foram surgindo, como intradisciplinaridade,
pluridisciplinaridade e transdisciplinaridade.

A intradisciplinaridade,
entendida, nas ciências da educação, como a relação interna entre a disciplina
“mãe” e a disciplina “aplicada”. O termo interdisciplinaridade,
na educação, já não oferece problema, pois, ao tratar do mesmo objeto de
ciência, uma ciência da educação “complementa” outra. Diga-se o mesmo
quanto à pluridisciplinaridade. É a natureza do próprio fato/ato educativo,
isto é, a sua complexidade, que exige uma explicação e uma compreensão
pluridisciplinar. A interdisciplinaridade é uma forma de pensar. Piaget
sustentava que a interdisciplinaridade seria uma forma de se chegar à transdisciplinaridade,
etapa que não ficaria na interação e reciprocidade entre as ciências, mas
alcançaria um estágio onde não haveria mais fronteiras entre as disciplinas.

Após a 2ª Guerra Mundial, a
interdisciplinaridade aparece como preocupação humanista além da preocupação
com as ciências. Desde então, parece que todas as correntes de pensamento
se ocuparam com a questão da interdisciplinaridade:

 

1º - a teologia fenomenológica encontrou
nesse conceito uma chave para o diálogo entre igreja e mundo;

2º – o existencialismo, buscando dar às
ciências uma “cara humana”;

3º – o neo-positivismo que buscava no
interior do positivismo a solução para o problema da unidade das ciências;

4º – o marxismo que buscava uma via
diferente para a restauração da unidade entre todo e parte.

O projeto de interdisciplinaridade
nas ciências passou de uma fase filosófica (humanista) de definição e
explicitação terminológica, na década de 70, para uma segunda fase (mais
científica) de discussão do seu lugar nas ciências humanas e na educação, na
década de 80. Atualmente, no plano teórico, busca-se fundar a
interdisciplinaridade na ética e na antropologia, ao mesmo tempo que, no plano
prático, surgem projetos que reivindicam uma visão interdisciplinar.

A interdisciplinaridade
visa a garantir a construção de um conhecimento globalizante, rompendo com as
fronteiras das disciplinas. Para isso, integrar conteúdos não seria suficiente.
Seria preciso uma atitude e postura interdisciplinar. Atitude de busca,
envolvimento, compromisso, reciprocidade diante do conhecimento.

A interdisciplinaridade se
desenvolveu em diversos campos e, de certo modo, contraditoriamente, até ela se
especializou, caindo na armadilha das ciências que ela queria evitar. Na
educação ela teve um desenvolvimento particular.


Nos projetos educacionais a
interdisciplinaridade se baseia em alguns princípios, entre eles:

1o - Na noção de tempo: o aluno não tem
tempo certo para aprender. Não existe data marcada para aprender. Ele aprende a
toda hora e não apenas na sala de aula.

2º - Na crença de que é o indivíduo que
aprende. Então, é preciso ensinar a aprender, a estudar etc. ao indivíduo e não
a um coletivo amorfo. Portanto, uma relação direta e pessoal com a aquisição do
saber.

3º - Embora apreendido individualmente,
o conhecimento é uma totalidade. O todo é formado pelas partes, mas não é
apenas a soma das partes. É maior que as partes.

4º – A criança, o jovem e o adulto
aprendem quando têm um projeto de vida e o conteúdo do ensino é significativo
para eles no interior desse projeto. Aprendemos quando nos envolvemos com
emoção e razão no processo de reprodução e criação do conhecimento. A biografia
do aluno é, portanto, a base do seu projeto de vida e de aquisição do
conhecimento e de atitudes novas.

 

A metodologia do
trabalho interdisciplinar
implica em:


1º – integração de conteúdos;

2º – passar de uma concepção fragmentária
para uma concepção unitária do conhecimento;

3º – superar a dicotomia entre ensino e
pesquisa, considerando o estudo e a pesquisa, a partir da contribuição das
diversas ciências;

4º - ensino-aprendizagem centrado numa
visão de que aprendemos ao longo de toda a vida.

O conceito chegou ao final
desse século com a mesma conotação positiva do início do século, isto é, como
forma (método) de buscar, nas ciências, um conhecimento integral e totalizante
do mundo frente à fragmentação do saber, e na educação, como forma cooperativa
de trabalho para substituir procedimentos individualistas.

A ação pedagógica através
da interdisciplinaridade aponta para a construção de uma escola participativa e
decisiva na formação do sujeito social. O seu objetivo tornou-se a
experimentação da vivência de uma realidade global, que se insere nas
experiências cotidianas do aluno, do professor e do povo e que, na teoria positivista
era compartimentada e fragmentada. Articular saber, conhecimento, vivência,
escola comunidade, meio-ambiente etc. tornou-se, nos últimos anos, o objetivo
da interdisciplinaridade que se traduz, na prática, por um trabalho coletivo e
solidário na organização da escola. Um projeto interdisciplinar de educação
deverá ser marcado por uma visão geral da educação, num sentido progressista e
libertador.

A interdisciplinaridade
deve ser entendida como conceito correlato ao de autonomia intelectual e moral.
Nesse sentido a interdisciplinaridade serve-se mais do construtivismo do que
serve a ele. O construtivismo é uma teoria da aprendizagem que entende o
conhecimento como fruto da interação entre o sujeito e o meio. Nessa teoria o
papel do sujeito é primordial na construção do conhecimento.

 

Portanto, o construtivismo
tem tudo a ver com a interdisciplinaridade.


A relação entre autonomia
intelectual e interdisciplinaridade é imediata. Na teoria do conhecimento de
Piaget o sujeito não é alguém que espera que o conhecimento seja transmitido a
ele por um ato de benevolência. É o sujeito que aprende através de suas
próprias ações sobre os objetos do mundo. É ele, enquanto sujeito autônomo, que
constrói suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo que organiza seu
mundo, como costumava nos dizer, em Genebra, nosso mestre Piaget.

 


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Fonte: Instituto Paulo Freire/Programa de Educação Continuada

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