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Fisiologicamente, a pressa cria um estado de euforia no
indivíduo, que pode se prolongar mesmo após o término daquela atividade. Se
temos pressa de chegar ao trabalho ou escola, ou outro, é porque estamos com
medo de que alguma coisa nos aconteça; podem nos chamar à atenção, podemos
ser punidos. Desse modo, nosso corpo reage de duas formas; a primeira é
gerando a energia da qual precisamos para nos apressar, a outra é criando
energia para nos defender de um mal que inicialmente não é por nós visível.
Se estamos
preocupados, nossa atenção será sempre falha, o que nos predispõe a cometer
erros graves, que podem prejudicar a nós e aos outros. Diante de um nível de
preocupação médio, não nos importaremos com mais ninguém, e logo nos
tornaremos insensíveis à dor alheia. Se estamos preocupados com nosso próprio
bem estar, o senso comum é que nos esqueçamos dos outros à nossa volta. Não
há como ser diferente, é o instinto animal dizendo que nossa segurança e
satisfação deve vir em primeiro lugar. Passado o período de agitação, já
refeitos emocionalmente, podemos até alegar que estávamos pensando no bem estar
de mais alguém, mas isso decerto nunca será uma verdade. O instinto assume
nosso controle emocional quando nos sentimos encurralados, diante de alguma
ameaça, ou de algo que insinue nos prejudicar. O instinto não tem senso
ético, nem está sujeito a sentimentos de espécie alguma, especialmente quando
se trata da razão de nós humanos.
Movidos pelo
instinto, nos tornaremos insensíveis e cruéis. supondo que os outros façam a
mesma coisa, estaremos então dispostos a nos destruir mutuamente, disputando
qualquer coisa, que pode ser até a prevalência de uma opinião. Eis um retrato
da maioria das pessoas da nossa realidade, e se não cuidarmos com urgência,
trata-se do mesmo futuro reservado à todos nós. Uma mente inquieta, mesmo em
um curto espaço de tempo, forma um indivíduo inseguro, incapaz de reter sua
atenção naquilo que está fazendo; incapaz de dar atenção a quem quer que
seja. Se tornará um indivíduo disposto a conseguir as coisas da maneira mais
fácil, mesmo que seja enganando as pessoas através das mentiras. Um adulto
inquieto, nunca está totalmente presente onde está; será para sempre um
indivíduo ausente, fragmentado, dividido, entre aquilo que está fazendo e o
que gostaria de fazer.
Assim, não conseguirá
se realizar plenamente em nenhum empreendimento que venha a arquitetar. Será
por natureza agressivo e é quase certo que não respeite o espaço do seu
próximo. Será dominador por natureza, imaginará que os outros devem se
submeter aos seus caprichos; tornar-se-á impaciente e inflexível em seus
argumentos. Certamente nos seus relacionamentos buscará uma perfeição que não
existe, e será uma fonte permanente de conflitos existenciais sérios. Assim,
o educador atento às conseqüências da inquietude juvenil ou infantil, deve
ter em mãos alguns recursos que poderão levá-los a se conscientizarem desde
cedo, daquele estado, que embora seja uma parte indissolúvel da sua
personalidade, se não compreendido adequadamente, acabará se tornando um dos
seus maiores problemas. Apenas pela compreensão daquilo que é, o indivíduo
terá subsídios, para enfrentar e vencer de forma efetiva e inteligente a
questão.
Para que a criança
aprenda um pouco mais sobre si mesmo, para que aprenda a avaliar seu estado
emocional, a sentir seu espírito de momento a momento, a avaliar sua verdadeira
natureza, se seus sentimentos estão em comunhão com aquilo que está fazendo
ou em conflito. Para que aprenda a lidar com isso de forma racional, sem
fugas ou represando sentimentos de raiva ou mágoas, será preciso que o
orientador ajude-a a entender, o que ela representa como ser humano, se tem
uma função na vida, que valores são importantes e necessários para uma
existência pacífica e plena. Mas antes de começar, será necessário que o
mestre aprenda o mesmo sobre si mesmo. Um sentimento ganha força de
propagação quando o sentimos, e a partir daí o partilhamos com os outros, uma
teoria não. Uma teoria logo será suplantada por outra, e assim seguirá seu
percurso sem fim, rumo às contestações que sempre darão lugar a novas
teorias, e cujo resultado será sempre coisa nenhuma.
Entender a si mesmo é
aprender sobre aquilo que sentimos, não o sentimento rotulado, mas a sensação
viva que cada coisa proporciona ao nosso ser, no momento em que estamos a
experienciá-la. Isto quer dizer, ouvir nossos sentidos, entender sua
linguagem de forma clara, deixar que nos digam o que verdadeiramente
sentimos. Talvez tenhamos que abrir mão dos rótulos, que nos dizem o que
devemos sentir, ou antecipam de forma sistemática nossas emoções. Se entramos
numa sala escura, e já temos idéias formadas sobre a escuridão, é certo que
vamos ignorar todo resto, pois nossa atenção vai estar completamente focada
apenas no fato de estar tudo escuro.
É fácil ver o que
significa para nós a palavra felicidade? Mas a palavra felicidade é apenas um
conceito com formas e normas próprias, ela não representa de forma alguma a
felicidade, o estado independente que de fato ela é. Antes disso, passa
apenas a expressar uma idéia de felicidade, que as pessoas instituíram para
si, um mero modelo material, um esquema burocrático que se interpretado e
seguido à risca supostamente faria aquela pessoa feliz. Seria no entanto,
apenas uma condição instituída de algo que nos proporcionaria momentaneamente
satisfação. Satisfação é a simples realização de um desejo, e assim sempre
restam outros e outros, que nunca serão satisfatoriamente atendidos, isso
estaria mais próximo de infelicidade e não de felicidade.
Assim, entender e
depois compreender que as palavras não são capazes de reproduzir nas pessoas
aquilo que se prestam a expressar, seria o primeiro passo nessa direção.
Podemos por exemplo observar todo nosso estado emocional momento a momento,
isso nos proporcionaria um instante único, com benefícios incalculáveis para
todo o nosso ser, onde poderíamos sentir que o tempo pode parar, se
quisermos. Numa primeira etapa, isso ficaria restrito a uma parte do nosso
tempo programado antecipadamente, que poderíamos definir como, a situação de
momento do meu ser. Depois pode ser praticada a qualquer momento, pois a cada
um deles, será uma fração de tempo de novas descobertas.
A
Prática.
O exercício poderá ser realizado individualmente ou em grupo.
A
pessoa pode estar sentada ou em pé, mas o importante é que esteja
parada, e na medida do possível, relaxada e em silêncio. De qualquer modo à
própria prática promove o relaxamento natural do indivíduo. Por estar
relaxado, entendemos, NÃO dar atenção a qualquer outra coisa, que não seja
aquilo que se vai realizar naquele momento. Devemos ter em mente, que apenas
uma coisa pode ser realizada por vez.
Podemos
orientar para alguém fechar os olhos, e calmamente pedir que tente
perceber o ambiente. Peça para que escute o que ouve, cada barulho, cada
coisa que possa identificar como ruído. De olhos fechados e atenta, a pessoa
deverá escutar e perceber, sem identificar, quer dizer, sem dar nomes, cada
ruído existente no ambiente. Peça que ela apenas escute, sem resistência, sem
dar opiniões sobre o que ouve. A cada som que escuta, ela deve tentar
descobrir de onde vem. Depois de um tempo, aí sim, deverá tentar identificar
o que é cada coisa que consegue ouvir, inclusive o silêncio; isso inclui sua
própria respiração e a de outros ao seu lado, caso esteja em grupo.
Feito
isso,
sua atenção estará totalmente focada naquela ação, sua mente estará então,
sem resistência ou esforço, centrada apenas naquilo que está fazendo, sem
saltitar de um lado para outro em busca do que fazer. Depois peça para que
sinta aquilo que é capaz de perceber nesse estado, e você verá que ela estará
naturalmente calma, ciente de tudo à sua volta, consciente de que é capaz de
ter autocontrole e atenção.
Dentro
da mesma metodologia, numa outra etapa, peça para que sintam os cheiros,
depois as sensações térmicas, e com isso seu estado de atenção estará pleno,
trabalhando de uma forma tão intensa quanto nunca antes, conscientemente
experimentou. O estado resultante dessa pequena prática, é segurança pessoal,
calma, equilíbrio psicológico, consciência intensa de si mesmo, o que quer
dizer, uma porta aberta ao autoconhecimento.

Fonte: http://sitededicas.uol.com.br/art_obs_silenciosa.htm
Autor: Alberto Filho
email: albjorge@yahoo.com.br
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